O transporte de carga fracionada (LCL) é frequentemente descrito no comércio exterior sob uma dualidade marcante: um produto comercialmente simples de vender, mas de altíssima complexidade operacional para estruturar.
Para desmistificar essa dinâmica e analisar o papel estratégico do LCL nas operações globais, a CRAFT convidou Sadao Oshiro (Diretor Global de LCL na CRAFT), Vitor Moreira (CRAFT) e Samara Matos (Scan Global Logistics) para um bate-papo no centro da Intermodal 2026, dentro do CRAFT Talks.
Do gerenciamento de riscos à engenharia dos Hubports, os especialistas discutiram e apresentaram insights valiosos sobre como transformar o LCL em uma ferramenta poderosa de eficiência e rentabilidade.
O coração da CRAFT: movimentar e conectar para viabilizar negócios
A essência do NVOCC (Non-Vessel Operating Common Carrier) neutro no ecossistema LCL reside na capacidade de absorver incertezas para entregar previsibilidade ao mercado. Como pontuou Vitor Moreira, o modelo baseia-se em uma premissa clara de risco compartilhado:
“O LCL nada mais é do que o importador ou exportador pagar parcialmente pelo espaço que utiliza, sem a necessidade de um contêiner inteiro. Mas, para isso, alguém precisa assumir o risco de pagar pelo contêiner total junto ao armador, sem saber antecipadamente se ele será preenchido. A CRAFT se especializou em absorver esse risco e criar rotas consolidadas previsíveis.”
Rompendo mitos: o LCL na visão do freight forwarder
Na rotina dos agentes de carga (Freight Forwarders), o LCL muitas vezes é acionado em momentos críticos — o famoso “resolvedor de problemas” quando o planejamento do contêiner completo (FCL) sofre imprevistos. Samara Matos desmistificou essa visão, apontando-o como uma solução altamente estratégica.
Os principais drivers de escolha do LCL:
- Eficiência de Fluxo de Caixa: O importador paga estritamente pela fração de volume (M³) ou peso (toneladas) que ocupa.
- Estratégia de Estoque: Permite a manutenção do “estoque na água”, pulverizando embarques para evitar gargalos de armazenagem nacional.
- Testes de Mercado: Facilita o investimento e a validação de novos fornecedores ou mercados específicos sem a necessidade de grandes lotes de compra.

Samara também abordou um mito comercial recorrente: o receio de que a oferta de soluções fracionadas possa canibalizar as operações de FCL.
“Existe o mito de que vender LCL pode fazer o agente perder o cliente de FCL. Na verdade, são nichos e necessidades diferentes.”
A Engenharia por Trás dos Fluxos: Hubports e Coloaders
Um dos momentos mais técnicos do debate destacou o que diferencia uma rota de alta performance de uma operação comum: o desenho logístico e a escolha de parceiros estratégicos.
O mito de Shanghai e a realidade dos Hubports
Questionado sobre os critérios de lançamento de novos serviços, Vitor Moreira explicou o conceito de Hubport — portos autorizados por legislação e infraestrutura a receber cargas de origens diversas, abrir os contêineres e reconsolidá-las para destinos finais (como trazer cargas do Camboja integrando-as em Singapura ou Hong Kong).
Vitor trouxe um exemplo prático que surpreende muitos profissionais: Por que Shanghai, o maior porto do mundo, não funciona como um Hub de reconsolidação?
- Complexidade Interna: Shanghai possui múltiplas autoridades portuárias, terminais massivos e berços de atracação distantes.
- Foco Operacional: O volume de carga originária da própria região é tão gigantesco que movimentar cargas de terceiros travaria a operação local.
- O Critério do Hub: Para ser um Hubport eficiente (como Singapura), o porto não precisa apenas ser grande; ele deve possuir trâmites aduaneiros ágeis focados estritamente na transferência célere entre navios (transhipment).
Parceria transparente (White Label)
Para os agentes de carga, contar com um NVOCC neutro que atue como um parceiro de bastidores é fundamental. Samara destacou que o cliente final busca a entrega do serviço contratado; portanto, a sinergia entre o Forwarder e o consolidador deve ser invisível em termos de qualidade. Soluções customizadas como o Buyer’s Consolidation (ou Assembly, consolidando múltiplos fornecedores estrangeiros em um único lote LCL) nascem justamente dessa engenharia conjunta entre o agente e a CRAFT.
O fator humano na logística global: “Think Global, Act Local”
Ao final do painel, os especialistas convergiram em um ponto central: em um mercado globalizado e altamente tecnológico, o verdadeiro diferencial competitivo ainda reside no relacionamento humano e na presença local.
Tanto a Scan Global Logistics quanto a CRAFT compartilham de filosofias semelhantes: o Local Approach e o conceito de “Pensar Global, Agir Local”.
A logística internacional é inerentemente suscetível a imprevistos operacionais, climáticos e aduaneiros. O que define o sucesso de uma cadeia de suprimentos não é a ausência de problemas, mas a velocidade, a transparência e a disponibilidade de profissionais qualificados para resolvê-los prontamente na ponta local.
Quer assistir ao bate-papo na íntegra? Confira o episódio completo do Craft Talks gravado ao vivo na Intermodal 2026 e aprofunde seus conhecimentos nas soluções de LCL que estão movimentando o mercado.