Boa parte das principais rotas do transporte marítimo internacional depende de alguns poucos pontos do mapa. Canais construídos para encurtar distâncias e estreitos formados naturalmente conectam oceanos, mares, grandes centros produtores e mercados consumidores. Em alguns casos, uma passagem com poucas dezenas ou centenas de quilômetros pode determinar o caminho de cargas que percorrem milhares de quilômetros.
Esses pontos são conhecidos no comércio internacional como maritime chokepoints, ou pontos de estrangulamento marítimo. A concentração do tráfego nessas passagens faz com que qualquer restrição, seja por questões geopolíticas, acidentes, condições climáticas ou limitações de capacidade, possa produzir efeitos muito além da região onde o problema ocorreu.
Abaixo, você confere os principais canais e estreitos marítimos do mundo, como influenciam a logística internacional e sua importância estratégica para exportadores e importadores.
Canal de Suez: a ligação entre Ásia e Europa
Inaugurado em 1869, o Canal de Suez, no Egito, conecta o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho e permite que navios façam a ligação entre Europa e Ásia sem contornar todo o continente africano pelo Cabo da Boa Esperança.
Por isso, este canal é especialmente relevante para serviços marítimos entre a Ásia, o Mediterrâneo e o Norte da Europa. A rota está diretamente relacionada ao fluxo de contêineres, petróleo, derivados e outras commodities.
Sua importância ficou particularmente evidente em 2021, quando o porta-contêineres Ever Given encalhou e bloqueou o canal durante seis dias. Mais recentemente, os riscos à navegação no Mar Vermelho levaram diferentes armadores a desviar embarcações pela costa africana.
A alternativa pelo Cabo da Boa Esperança mantém a conexão marítima, mas aumenta significativamente a distância percorrida. Na prática, isso pode significar mais dias em trânsito, maior consumo de combustível, necessidade adicional de capacidade e mudanças nas escalas dos navios.
É um exemplo claro de como uma interrupção localizada pode afetar cadeias logísticas em diferentes continentes.
Estreito de Bab el-Mandeb: a porta de entrada do Mar Vermelho
Para chegar ao Canal de Suez vindo do Oceano Índico, os navios precisam atravessar outro ponto estratégico: o Estreito de Bab el-Mandeb, localizado entre o Iêmen, no Oriente Médio, e Djibuti e Eritreia, no continente africano.
A passagem conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e, consequentemente, faz parte de uma das principais rotas entre Ásia e Europa.
Suez e Bab el-Mandeb, portanto, devem ser entendidos como partes de um mesmo corredor logístico. Problemas em qualquer um dos dois pontos podem comprometer a atratividade de toda a rota.
Canal do Panamá: o atalho entre Atlântico e Pacífico
Se Suez é uma passagem fundamental entre Europa e Ásia, o Canal do Panamá desempenha papel semelhante na conexão entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
Antes de sua inauguração, em 1914, embarcações que precisavam passar de um oceano ao outro nas Américas podiam ter que contornar a América do Sul. O canal transformou essa dinâmica ao criar um corredor de aproximadamente 80 quilômetros através do território panamenho.
Atualmente, o canal conecta importantes rotas envolvendo Ásia, Estados Unidos, América Latina e Europa. Segundo a Autoridade do Canal do Panamá, a hidrovia conecta cerca de 180 rotas comerciais, 1.920 portos em 170 países e movimenta cargas com valor comercial estimado em aproximadamente US$ 444 bilhões por ano.
Estreito de Malaca: um corredor essencial para o comércio asiático
Entre a Península Malaia e a ilha indonésia de Sumatra se encontra o Estreito de Malaca, que conecta o Oceano Índico ao Mar do Sul da China e, a partir dele, conecta às principais economias do Leste Asiático.
Sua localização faz com que seja uma passagem fundamental para cargas transportadas entre o Oriente Médio, a Europa e grandes mercados asiáticos, como China, Japão e Coreia do Sul.
Malaca também possui enorme importância energética. Dados da U.S. Energy Information Administration (EIA) mostram que aproximadamente 23,2 milhões de barris por dia de petróleo e derivados atravessaram o estreito no primeiro semestre de 2025, tornando-o um dos maiores chokepoints energéticos do planeta.
Estreito de Ormuz: um dos pontos mais sensíveis do mercado de energia
Localizado entre o Irã e Omã, o Estreito de Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. Embora sua importância seja especialmente relacionada ao transporte de energia, os efeitos de uma interrupção nessa região podem atingir praticamente toda a economia mundial.
Em 2025, antes das fortes disrupções observadas em 2026, cerca de 21 milhões de barris de petróleo e derivados por dia atravessavam Ormuz. Além disso, mais de 20% do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) passou pelo estreito no primeiro semestre daquele ano.
A passagem é particularmente estratégica porque importantes exportadores de petróleo e gás do Golfo Pérsico dependem dela para acessar os mercados internacionais.
Estreitos Turcos: a saída do Mar Negro
Os estreitos de Bósforo e Dardanelos, conectados pelo Mar de Mármara, formam a passagem marítima entre o Mar Negro e o Mediterrâneo.
A localização coloca a Turquia no centro de um corredor estratégico para as exportações e importações de países banhados pelo Mar Negro. A região é particularmente relevante para cargas de granéis, como petróleo, derivados, fertilizantes, minérios e produtos agrícolas.
A guerra entre Rússia e Ucrânia reforçou a importância logística e geopolítica dessa área. Mudanças na disponibilidade de portos, segurança da navegação e fluxos comerciais no Mar Negro podem alterar o transporte de commodities e repercutir em mercados internacionais.
Planejamento é essencial em um transporte marítimo cada vez mais conectado
No transporte internacional, milhares de quilômetros podem separar origem e destino, mas alguns dos maiores riscos da operação estão concentrados em poucos pontos do percurso.
Entender o papel dos canais e estreitos marítimos permite antecipar cenários e tomar decisões mais bem informadas diante de mudanças nas rotas globais.
Na CRAFT, acompanhamos o mercado internacional e as principais movimentações que podem impactar as operações de nossos clientes. Como NVOCC, trabalhamos com diferentes alternativas de transporte e parceiros ao redor do mundo para apoiar importadores e exportadores na busca por soluções adequadas a cada cenário.
Em um mercado no qual uma restrição em um estreito pode repercutir em cadeias logísticas a milhares de quilômetros de distância, informação e planejamento são partes essenciais da estratégia. Acompanhe nossos Conteúdos e nossas Redes sociais para ficar por dentro de todas as novidades.